Cerco de Gergovia
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Cesar chega à Gergovia em cinco dias de marcha; travado nesse dia leve combate de cavalaria, depois de examinada a situação da praça, que, assentada em monte altíssimo, tinha difíceis todas as avenidas, desesperou de poder tomá-la de assalto; e resolveu prover no abastecimento de víveres, antes de começar a sitiá-la. Mas Vercingetorix, estabelecidos arraiais junto da praça, tinha colocado em volta de si as tropas de cada cidade, separadas umas das outras com pequenos intervalos, e ocupadas todas as colinas desta serrania, apresentava, por onde podia ver-se, aterrador aspecto. Ao amanhecer convocava diariamente à sua presença os principais de todas as cidades, os quais havia escolhido para aconselhá-lo, ou tivesse de comunicar-lhes alguma coisa, ou de tomar alguma medida, e não deixava passar um só dia, em que não experimentasse em combate eqüestre, com arqueiros de permeio, quanto ânimo e valor houvesse em cada um dos seus. Havia defronte da praça nas mesmas raízes da serra uma colina egregiamente fortificada, e por todos os lados alcantilada, a qual se os nossos ocupassem, teriam de embaraçar o inimigo não só de prover-se de água em suficiente quantidade, como de forragear livremente. E este lugar era guardado por uma guarnição não mui forte. Saindo, pois, dos arraiais no siléncio da noite, e apoderando-se do lugar, lançada dele a guarnição, antes de lhe poder vir da praça socorro, aí colocou Cesar duas legiões, e fez um duplo fosso de doze pés, dos arraiais maiores aos menores, para que os nossos, ainda isolados, pudessem atravessar de uns para outros, a coberto do repentino assalto dos inimigos.
Enquanto estas coisas se passam em Gergovia, o Heduo Convictolitave, a quem, como dissemos, fora por Cesar adjudicada a magistratura, solicitado pelos Arvernos com dinheiro, entende-se com certos adolescentes, dos quais eram os principais Litavico e seus irmãos, descendentes de família nobilíssima. Com eles reparte o dinheiro, e os admoesta: “Que se lembrassem que eram livres, e nascidos para o império. Que a cidade dos Heduos era a única que retardava a certíssma vitória da Galia; — a sua autoridade continha as demais; passada ela ao partido Gaulês, não teriam os Romanos apoio algum na Galia. Que alguma obrigação devia em verdade a Cesar, que em última análise lhe fizera justiça; mas mais devia ainda a liberdade comum. Porque antes viriam os Heduos pleitear acerca de seus direitos e leis perante Cesar, que os Romanos perante os Heduos?” Seduzidos bem depressa os adolescentes, tanto pelo discurso do magistrado, como pelo dinheiro, e afiançando até que seriam os diretores da empresa, buscava-se um pretexto para levá-la a efeito, porque não confiava poder ser a cidade induzida a empreender a guerra sem fundamento. Pareceu conveniente, que Litavico fosse preposto aqueles dez mil, que seriam mandados a Cesar para a guerra, se encarregasse de conduzi-los, e seus irmãos o precedessem junto a Cesar. Determinam a maneira por que convenha fazer o mais.
Depois de haver recebido o exército, achando-se cerca de trinta mil passos distantes de Gergovia, convoca Litavico subitamente os soldados, e diz-lhes, chorando: “Para onde marchamos nós, soldados? Pereceu toda a nossa cavalaria, toda a nossa nobreza; acusados de traição, foram os principais da cidade, Eporedorix e Viviromaro, mortos pelos Romanos sem forma de processo. Ouvi-o vós dos mesmos, que escaparam da matança, porquanto, havendo perdido meus irmãos e todos os meus parentes, vejo-me eu embargado pela dor de narrar-vos o acontecido.” São apresentados os que tinham sido ensaiados no que haviam de dizer, e expõem à multidão o mesmo, que Litavico: — haverem sido mortos os cavaleiros Heduos, porque se dizia terem falado com os Arvernos; haverem-se eles mesmos ocultado entre a multidão dos soldados, e terem escapado do meio da matança — Bradam os Heduos, e pedem a Litavico, considere na sua segurança. “Como se o caso — diz ele — requeira considerar, e não marcharmos nós mesmos para Gergovia, e unirmo-nos com Arvernos. Duvidamos por ventura que os Romanos, depois de cometido o nefando atentado, não corram já a trucidar-nos. Porisso, se há em nós algum vislumbre de coragem, vinguemos a morte dos nossos, que pereceram tão indignamente, e matemos a estes ladrões.” Mostra os cidadãos Romanos que vinham confiados na salva-guarda desta força: saqueia-lhes grande quantidade de trigo e vitualhas, e mata-os, depois de cruelmente atormentados. Espalha correios por toda a cidade dos Heduos, que abala com a mesma mentira da morte dos cavaleiros e principais; aconselha que vinguem suas afrontas pela mesma forma, que ele o fez.
O Heduo Eporedorix, adolescente de família mui preclara e mui poderoso na pátria, bem como Viridomaro, de igual idade e valia, mas desigual em nobreza, a quem Cesar, por recomendação de Diviciaco, havia elevado de humilde condição às maiores dignidades, tinham ambos vindo com a cavalaria dos Heduos, nomeadamente por ele convidados. Havia entre estes competência sobre a primazia, e naquela pendência dos magistrados tinham intervindo com grandes meios, um a favor de Convictolitave, outro de Coto. Destes Eporedorix, sabido o plano de Litavico, o expõe a Cesar quase pela meia noite, e pede-lhe não consinta que a cidade pelos péssimos conselhos de mancebos levianos se retire da amizade do povo Romano, o que previa haver de acontecer, se se juntassem com os inimigos tantos mil homens, cuja salvação não podia ser indiferente aos parentes, nem a cidade estimar em coisa de leve momento.
Impressionado por grave cuidado com esta notícia, Cesar que sempre havia sumamente comprazido com a cidade dos Heduos, sem interpor dúvida alguma, tira dos arraiais quatro legiões expeditas e toda a cavalaria (nem em tais pressas houve tempo de contrair arraiais, pois o bom resultado do negócio parecia posto na celeridade): deixa o lugar-tenente C. Fabio com duas legiões de guarda aos mesmos. Tendo ordenado que fossem presos os irmãos de Litavico, sabe haverem pouco antes fugido para os inimigos. Exortando os soldados a não afrouxarem na marcha em ocasião tão urgente, e avançando vinte e cinco mil passos por suma diligência de todos, avista por fim o exército dos Héduos; e, despedindo a cavalaria, demora-lhes e embarga a marcha, proibindo a todos o matarem a quem quer que fosse. Ordena a Eporedorix e a Viridomaro, que eles julgavam mortos, se mostrem entre os cavaleiros e falem aos seus. Conhecidos estes e descoberta a fraude de Litavico, entram os Heduos a estender as mãos, a significar que se rendiam, e a pedir a vida, arremessadas as armas. Foge Litavico para Gergovia com os seus clientes, aos quais, segundo o costume gaul6es, ainda na maior extremidade é vedado abandonar os patronos.
Depois de ter enviado expressos à cidade dos Heduos, para lhe fazer constar, que por benefício seu haviam sido conservados os que por direito da guerra pudera ter morto, havendo concedido três horas da noite para repouso ao exército, move Cesar arraiais para Gergovia. Quase ao meio do caminho, chegam-lhe cavaleiros da parte de Fabio, a expor “quão grande risco se havia corrido, sendo os arraiais atacados por forças superiores, que eram, quando cansados, revezadas por outras de fresco, e fatigavam com o assíduo trabalho aos nossos, que por amor da grande extensão dos arraiais tinham de permanecer constantemente na trincheira. Que muitos estavam feridos com a multidão de setas e de todo gênero de armas de arremesso; — e de grande utilidade para repelir este assalto haviam sido os tormentos — Depois da retirada dos assaltantes, obstruia Fabio, deixando duas, as demais portas, punha parapeitos nas trincheiras, e se preparava para o seguinte dia e caso semelhante”. Ao saber disto, por suma diligência dos soldados, chega Cesar aos arraiais antes do nascer do sol.
Enquanto estas coisas se passam em Gergovia, os Heduos, ao chegaram-lhes os primeiros correios de Litavico, nenhum espaço se deixam à reflexão. A uns impele a avareza, a outros a iracúndia, e a temeridade, natural àquele gênero de homens, de terem uma leve audição por coisa averiguada. Despojam de seus bens aos cidadãos Romanos, trucidam-nos, arrastam-nos à escravidão. Auxilia Convictolitave o impulso dado, e enche a plebe de furor, afim que, manchado com o crime, se peje de voltar a bom conselho. Ao tribuno dos soldados, M. Aristio, que partia a reunir-se à sua legião, obrigam-no, sob palavra de lhe não fazerem mal, a sair da praça de Cabilono, e a praticar o mesmo, os que aí se achavam a negociar. A estes, acometendo-os incessantemente pelo caminho, os despojam de quanto levavam; aos que lhes resistem, os cercam dia e noite; mortos muitos de parte a parte, chamam maior multidão de homens armados.
Vindo-lhes, no entanto, a notícia de se acharem os seus soldados em poder de Cesar, correm a ter com Aristio, demonstram que nada fizera por acordo comum da cidade; ordenam uma devassa sobre os bens roubados; confiscam os bens de Litavíco e seus irmãos; mandam embaixadores a Cesar para justificar-se. Fazem isto para reaver os seus; mas, eivados do crime, interessados na pilhagem dos bens roubados, pois a coisa respeitava a muitos, e impressionados com o temor do castigo, entram a forjar ocultamente projetos de guerra, e a solicitar as demais cidades com embaixadas. E posto bem o entendesse Cesar, responde, todavia, aos embaixadores o mais brandamente que pode: “Que não ajuizava mal da cidade, nem diminuia coisa alguma de sua benevolência para com os Heduos, por causa da ignorância e leveza do vulgo.” Contando com maior movimento na Galia, afim de que se não visse cercada por todas as cidades, traçava o mesmo na mente, o como se retiraria de Gergovia, e reuniria de novo todo o exército, sem que a retirada, proveniente do receio da sublevação, parecesse semelhante à fuga.
[editar] Fontes
Comnetários sobre a Guerra Gáliaca. Autor; Júlio César
A Legião de César. Autor; Stephen Dando-Collins
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