Usuário:Carequinha
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[editar] ARTES CÊNICAS
- Um dos artistas de circo mais famosos do país, George Savalla Gomes gravou discos e participou de filmes
- Morre, aos 90 anos, o palhaço Carequinha
- Ivo Gonzales - 11.nov.2002/Ag. O Globo
- SÉRGIO RANGEL
- DA SUCURSAL DO RIO
George Savalla Gomes, o Carequinha, 90, um dos palhaços de circo mais famosos do país, morreu na manhã de ontem em sua casa em São Gonçalo (25 km do Rio). Ele passou mal durante a madrugada, com fortes dores no peito e falta de ar. Foi medicado, mas não resistiu. Desde o ano passado, o palhaço estava com a saúde debilitada em razão de problemas cardíacos. Em outubro, ficou internado quase um mês com pneumonia. Segundo o médico Fernando Medeiros, que cuidava de Carequinha, ele teve morte súbita. Carequinha foi o primeiro ator circense a fazer sucesso na televisão brasileira. Gravou 27 discos, 186 compactos e participou de filmes da era da chanchada. Ele nasceu no circo numa noite de 18 de julho de 1915, em Rio Bonito (a 54 km do Rio). Carequinha era filho dos trapezistas Elisa Savalla e Lázaro Gomes. Elisa sentiu as primeiras contrações durante uma apresentação no Circo Peruano, de seu avô. Aos cinco anos, na cidade de Carangola, Minas Gerais, Carequinha estreou no picadeiro, quando o padrasto Ozório, após alguns ensaios, colocou uma careca no pequeno menino e deu o nome ao seu personagem. Em 1938, aos 23 anos, Carequinha apareceu como cantor na Rádio Mayrink Veiga, no Rio. Depois, atuou na Rádio Nacional. Nessa época, trabalhou com artistas como Francisco Alves, Emilinha Borba e Ângela Maria. "Inventei uma nova escola de palhaços. Até então as pessoas riam da desgraça do palhaço que apanhava como ele só. Não gostava disso e virei o herói da história. Os outros se davam mal. Mas o Carequinha não", dizia o palhaço, que estudou até o terceiro ano da faculdade de Direito. Em 1951, ele passou a trabalhar na então recém-inaugurada TV Tupi. tornado-se pioneiro artista de circo na televisão brasileira. Em 1957, Carequinha começou a obter sucesso em sua carreira musical. Seus principais êxitos foram a valsa "Saudade de Papai Noel", de Altamiro Carrilho, a marcha "Parabéns! Parabéns!", do mesmo Carrilho e de Irani de Oliveira, que se tornou um verdadeiro hino dos aniversários infantis, e o fox "O Bom Menino", clássico do cancioneiro infantil. Carequinha era conhecido como o palhaço dos presidentes. Apresentou-se para Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, João Goulart, passando pelos generais do governo militar. Ele recebeu condecoração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Em 1964, ganhou a medalha Palhaço Moderno do Mundo, na Itália, disputando com palhaços de 20 países. Fez shows em Portugal, nos EUA, na Argentina e no Reino Unido. Nos anos 80, apresentou por quase três anos um programa infantil na extinta Manchete. No ano passado, fez uma das últimas aparições na TV ao participar da minissérie "Hoje é Dia de Maria", da TV Globo. Carequinha morava em São Gonçalo desde 1937. "Gosto daqui. E, além do mais, moro perto do cemitério. Quando eu morrer não vou dar trabalho a ninguém. Vou a pé para lá", brincava. O corpo de Carequinha seria enterrado com roupa de palhaço ontem à tarde no cemitério de São Miguel.
[editar] Carequinha foi mais que engraçado
- HUGO POSSOLO
- ESPECIAL PARA A FOLHA
A alegria de assistir a um palhaço na infância, ao se transformar em lembrança, ganha ares nostálgicos. É o chavão do palhaço desolado tirando a maquiagem. De fato, não é nada fácil dar a cara a tapas, expor-se só para que os outros se divirtam. A dignidade dos palhaços é meio avessa, de quem se sente bem sendo absolutamente ridículo. Dessa dignidade esquisita é que viveu George Savalla Gomes, o palhaço Carequinha. Certamente, ele preferiria que o jornal fosse ocupado pela estréia de um novo espetáculo que pela notícia de seu falecimento. E isso não é uma piada. Carequinha mostrou que tão importante quanto ser engraçado é lutar pela arte circense. Infelizmente, o circo é tratado com mero entretenimento superficial, coisa do povão e, para os mais medíocres, algo populista. Carequinha, junto a Arrelia, Torresmo e Piolin, simbolizam como essa arte tem valor simbólico inegável. Basta perguntar para alguém mais velho e lá na memória estará guardado o nome de Carequinha. Foi um dos primeiros a levar a diversão circense para a TV, uma espécie de Trapalhões de sua época, quando atuava com Fred, Zumbi e Meio Quilo. Também lançou diversos discos (na época LPs). Um certo tom moralista, que resvalava na idéia de educar as crianças do Brasil, fez o sucesso de canções que ensinavam que "o bom menino não faz pipi na cama". Afirmava na TV que era um defensor da arte circense. Carequinha usou fama e prestígio e foi fundamental para que se efetivasse a Escola Nacional de Circo, em 1982, ainda hoje a única federal e gratuita. Uma das cenas mais comoventes que já vi no cinema é a encenação do enterro de um palhaço, feita por Fellini em "Os Palhaços". Lembro dela e sempre desconfio um pouco de quem escreve sobre quem acaba de morrer. Como não confio muito em mim, escondi-me atrás da maquiagem de palhaço para revelar a imensa tristeza pela perda de um ídolo. Mas, nada de choro, a não ser que esguiche na platéia. Carequinha, cá entre nós, no alto do céu feito de lona, sua estrela sempre figurou. Agora habitará numa constelação em forma de circo. Pode partir com a tranqüilidade de que a comicidade, aparentemente tão efêmera, irá perdurar. Anjos do picadeiro, palhaços do futuro, besteirólogos, jogadores de quintal, mínimos, intrépidos e anônimos pedem passagem para brincar no picadeiro.
Hugo Possolo, 43, é diretor, palhaço e dramaturgo do grupo Parlapatões