Eihei Dogen
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O Budismo foi introduzido no Japão por volta do ano de 538, e teve na figura do príncipe Shotoku o estímulo ao estudo e expansão, com vistas ao reforço do estado e do prestígio do imperador. Em Nara, primeira capital do Japão, surgiram os primeiros mosteiros. A mudança da capital para Kyoto, no séc. IX, deu origem à escola Tendai, uma das principais escolas do budismo japonês. Também se desenvolveram escolas devocionais (o budismo Terra Pura) e o budismo esotérico (escola Shingon). O Zen somente foi introduzido no Japão por volta de 1.100, pelo mestre Eisai, e desenvolveu-se principalmente entre os nobres guerreiros do regime feudal medieval. Mas foi através de Eihei Dogen (1200-1253), que chegou a estudar com discípulos do mestre Eisai, e posteriormente foi à China, que surgiu a escola Soto, de Zen japonês, cuja expansão atingiu a população em geral, com maior penetração entre a população camponesa. O Mestre Zen Budista Eihei Dogen nasceu em 1200, em Kyoto, então capital imperial do Japão. Filho de nobres, perdeu o pai aos três anos e a mãe aos oito. A perda de sua mãe parece ter causado forte impressão e iniciado o curso de suas questões sobre a natureza da existência. Aos 13 anos foi para um monastério no Monte Hiei, onde foi ordenado monge budista da escola Tendai. Ao dedicar-se com afinco ao estudo das escrituras budistas, defrontou-se com uma questão que para ele teve papel fundamental em suas escolhas: Se somos por natureza iluminados, por que precisamos buscar o esclarecimento e praticar? (KODERA, 1980, p.16). Dogen decidiu ir atrás de suas respostas, e começou a visitar muitos mestres. Esgotou suas expectativas em relação a encontrá-las no Japão e decidiu ir à China. Lá, após visitar e praticar com muitos professores finalmente encontrou aquele que lhe transmitiu o verdadeiro ensinamento, o Mestre Ju-Ching, da escola Ts’ao-Tung. Depois de encontrar o que procurava, resolveu voltar ao Japão e ensinar, transmitir esse budismo vivo, de coração a coração.
Um autêntico professor no budismo zen: Ju-ching
Ao chegar no mosteiro de T’ien-t’ung, o monge Dogen é recebido pelo abade de forma muito simpática e então expressa suas inquietações, pedindo que ele o aceite como discípulo. O mestre Ju-ching imediatamente o aceita e orienta a procurá-lo a qualquer momento do dia ou da noite para conversar sobre suas questões. Isso revela um relacionamento centrado no diálogo sobre os ensinamentos. Ju-ching era um mestre muito rigoroso, o treinamento levado a cabo no mosteiro era referido como sendo muito duro e difícil. Os monges dormiam pouco e se dedicavam durante muitas horas do dia à pratica da meditação sentada silenciosa. A principal instrução recebida por Dogen foi para que abandonasse corpo e mente ao caminho, significando um abandono completo de si mesmo e de toda e qualquer idéia de identidade ou pré-concepções acerca dos próprios ensinamentos, dedicando-se a prática central da meditação silenciosa com todo o seu ser:
Deixar cair corpo e mente é sentar em meditação. Ao praticar sinceramente o intenso sentar, os cinco desejos desaparecem e os cinco obstáculos são removidos (KODERA).
O abandono da compreensão intelectual através da absorção meditativa e do corpo através da disciplina foram decisivos para realizar o completo desapego. O mestre Ju-ching participava de todos os momentos de prática junto com os monges, e revelava com sua forma de viver a realização dos ensinamentos oferecidos. Após este período na China, nos primeiros anos como professor, Dogen irá repetir os ensinamentos de Ju-ching e tentar manter-se o mais fiel possível à forma como a prática era realizada em T’ien-t’ung. Numa segunda etapa de seu caminho, ele irá desenvolver uma forma própria em que alia os recursos da linguagem à pratica meditativa para abrir espaço, na atividade intelectual, à experiência direta. É interessante observar que os mesmos recursos que permitem a expressão lingüística da idéia de não-dualidade, sem a experiência direta funcionam como obstáculo à compreensão apenas lógica, intelectual, do mesmo conceito. Apesar de conhecer os escritos budistas, Dogen só foi capaz de realizar completamente o abandono de corpo e mente, ao encontrar em Ju-ching orientação e presentificação da experiência em sua maneira de viver. Não se trata, portanto de um aprendizado puramente intelectual, nem tampouco pragmático. A presença do diálogo, da reflexão, da aplicação prática dos ensinamentos compreendidos e a convivência com a realização na figura do mestre são elementos inseparáveis do que poderíamos chamar de uma pedagogia no budismo zen da escola soto. Mas a abertura do mestre precisa encontrar no discípulo o desprendimento em relação às suas próprias concepções do que seja esta experiência para poder permitir que as indicações lhe apontem o Caminho a ser seguido. Não se trata de adquirir novos conhecimentos sobre a realidade, mas de perceber a condição original de realização que já se encontra presente em cada forma de existência. Caberia ao aluno captar o eixo e expressá-lo: tudo que existe no Universo inteiro está alinhado em uma série de momentos e ao mesmo tempo é um momento único”.(DOGEN, Shobogenzo). Assim a experiência de abertura precisa ser mútua, professor e aluno, num encontro dialógico e vivencial, em que o aluno finalmente encontra dentro de si mesmo o mestre. Em seu retorno, Dogen encontrou dificuldades e oposição para estabelecer seu ensinamento. O período Kamakura (1185-1336) estava em seus primórdios, e havia uma reação das novas gerações à cultura aristocrática que dominou o período anterior (Heian-794/1185). Dogen havia nascido entre os nobres e seu pai serviu como alto funcionário, em meio à corrupção política da poderosa família Fujiwara, que durante longo tempo esteve no poder, mantendo um sistema feudal, explorador da população. O Budismo do período anterior se aliou ao sistema aristocrático. Dogen conhecia essa realidade de perto e se opunha a ela. A Escola Tendai, em que ele havia sido ordenado monge e praticado, antes de ir à China, iniciou uma campanha contra o Budismo Zen e Terra Pura que defendiam cada um uma forma de prática única , como caminho para alcançar a iluminação. Dogen retirou-se de Kyoto para Fukakusa, no interior, em seguida para mais fundo nas montanhas, onde fundou o Eiheiji, Templo da Paz Eterna. Enfatizava a prática longe dos ganhos mundanos, livre de buscar fama e lucro e afastado dos grandes centros de poder e influência.(YOKOI) Seu pensamento revela uma ênfase concentrada na serenidade como meio e fim, na intemporalidade de um momento, e a não-dualidade como estado original da mente, em que todas as coisas são percebidas como inseparáveis e interdependentes. (TANAHASHI).
Os Escritos de Dogen: Shobogenzo
O Pensamento do Mestre Zen Eihei Dogen possui uma constância em relação ao seu ponto fundamental. Seus ensinamentos de uma vida inteira apontam na direção de uma qualidade central em todas as formas de existência, chamada por ele de natureza original de todos os seres. Seu trabalho como professor visa levar o discípulo a descobrir por si mesmo a semelhança e a diferença que permeiam todas as formas de existência. O conceito de não-dualidade aparece em seu pensamento como de fundamental importância, sendo referido mesmo como expressão de sua realização pessoal do Dharma budista (YOKOI, 1990). Em seus ensinamentos, Dogen Zenji usa as palavras à sua própria maneira, não se preocupando em traduzir literalmente os ensinamentos do budismo, mas em transmitir seu significado profundo, de acordo com sua própria compreensão do assunto. Assim o conceito de não-dualidade transcende os conceitos de diferença e igualdade entre as coisas. Indica a realidade última, na qual todas as coisas possuem características singulares, sendo, entretanto iguais em sua essência (DOGEN, 1998). Seus ensinamentos não foram lidos em sua própria escola durante mais de 500 anos após sua morte, em 1253. Somente foi retomado em 1816, ano em que sua obra foi publicada pela Escola Soto pela primeira vez. Durante o período que sucedeu sua morte até a publicação do Shobogenzo predominou no Japão o sofisticado Zen Rinzai, que atendia às demandas da corte imperial, com suas expressões artísticas: pintura, desenhos, teatro nô, arranjo de flores e cerimônia do chá. Nesta época a Escola Soto difundiu-se mais entre as classes populares e camponeses da área rural. Desde 1930 que a obra de Dogen desperta interesse nos ocidentais, mas a primeira edição inglesa de sua obra SHOBOGENZO só foi feita em 1958. A versão completa só foi editada em 1983, em quatro volumes, traduzidos por Gudo Wafu Nishijima e Chodo Cross. Atualmente desperta grande interesse em países da Europa e nos Estados Unidos, onde diversos centros dedicam-se a estudar seu pensamento. Alguns escritos foram editados como trabalhos independentes, e ainda alguns ensinamentos foram reunidos e transcritos por seu discípulo direto e sucessor Koun Ejo No Brasil, um único trabalho reúne alguns capítulos selecionados e traduzidos sob o título: A Lua Numa Gota de Orvalho – (DOGEN, 1993).
Para mais informações ver a dissertação de mestrado em educação de Ivone Maia de Mello, 2004, UFPE. As informações contidas neste texto estão disponíveis no regime de copyleft, sendo livre sua reprodução desde que a fonte seja citada. Forma de citar este trabalho: Mello, Ivone - A Idéia de Não-dualidade no Pensamento do Mestre Zen Eihei Dogen: Implicações para a Teoria da Educação. Recife: UFPE, 2004.