Auto da Primavera
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O Auto da Primavera (1963) é um documentário português de longa-metragem de Manoel de Oliveira em que é encenada a celebração popular da Paixão de Cristo, festa tradicional da aldeia transmontana da Curalha. A obra é profundamente marcada pelo gesto teatral e pela palavra, modos pelos quais os actores se exprimem e que são próprios do género.
Género que contamina género. Condicionada por isso, a câmara segue o desenrolar do acto, movendo-se entre quadros longos e regulares mudanças de escala. É uma das obras contemporâneas do cinema etnográfico praticado por Jean Rouch e, nesse contexto, obra inovadora em Portugal no domínio da antropologia visual, que já tinha e viria a ter importantes contribuições de gente que também por coisas dessas se deixariam seduzir e que também iriam filmar (António Campos, António Reis, Ricardo Costa e outros mais). Ricardo Costa havia também de filmar o seu Acto da Paixão em lugar oposto, na vila do Redondo, no Alentejo, terra de outra gentes e de outras cores ( O Pão e o Vinho - 1983).
O Auto da Primavera estreou no cinema Império, em Lisboa, a 2 de Outubro de 1963.
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[editar] Sinopse
«Representação popular do Acto da Paixão, segundo o texto medieval de Francisco Vaz de Guimarães, apresentando a atmosfera duma comunidade que, para além das fainas e dos ritmos quotidianos, se transfigura em seus rituais ingénuos mas sinceros. Ao espectáculo, celebrado pela Páscoa e de iniciativa própria, assistem as gentes das aldeias vizinhas, sendo antecedido por uma apresentação, em que se enumeram as suas diversas fases». Cit.: José de Matos-Cruz, O Cais do Olhar, ed. da Cinemateca Portuguesa, 1999.
[editar] Ficha sumária
- Obra original: representação popular do Auto da Paixão segundo um texto do séc. XVI de Francisco Vaz de Guimarães.
- Argumento: Manoel de Oliveira
- Produtor: Manoel de Oliveira
- Consultores: José Régio, em questões de cultura e José Carvalhas, em questões de religião
- Selecção de actualidades: Paulo Rocha
- Rodagem: 1961 – 1962
- Formato: 35mm cor
- Tempo: 90’
- Laboratório de Imagem: Tóbis Portuguesa e Ulyssea Filme
- Laboratório de som: Studios Marignan (Paris)
- Distribuidor: Filmes Lusomundo
- Estreia: cinema Império, em Lisboa, a 2 de Outubro de 1963
[editar] Enquadramento histórico
No prosseguimento da sua experiência com Douro, Faina Fluvial, Oliveira, sempre fascinado por paisagens de infância, pelo sentido musical da imagem animada, resolve meter nela a palavra. Por imperativos técnicos, imobiliza-se a câmara. Desta vez, conta-se uma história e as personagens falam. São crianças. O diálogo é escrito. E o escrito é dito e a paisagem de fundo torna-se palco para uma ditada encenação. Os imperativos da palavra emperram o modo de falar filmico – a deriva do olhar em sucessivos enquadramentos – e o resultado fica entre o teatro e o cinema.
Filmando teatro de um modo teatral, submetendo-se a um imperativo, Manoel de Oliveira fará do Acto da Paixão um marco na sua carreira. A questão do imperativo teatral no seu cinema tem origem neste filme e isso fundamentará opiniões e vontades que na sua carreira apostam e que no futuro se hão-de afirmar: O Passado e o Presente (1971).
A teatralidade, entretanto condizente no Acto da Primavra, tinha sido defeito em Aniki-Bobó. Voltou a ser defeito n’O Passado e o Presente, mas mal isso foi dito ergueram-se as vozes e as vontades. Houve barafunda. A questão acabou por ficar mal esclarecida. Pouco tempo depois ficou toda a gente a saber, feitas as contas, quem tinha razão. A prova estava bem à vista no teatral arrojo de tudo o que se vê no (Amor de Perdição. Como não podia deixar de ser, a peça seria verbosa e longa, bem à medida do romantismo camiliano e do típico sentimento portugues.
Outras provas marcantes haviam de surgir. À parte algumas notáveis excepções, o estilo vingou. E Oliveira, desinteressando-se de vez pela raia miúda, fixou-se no insólito, no imaginário da burguesia, em temas grandiloquentes, em retratos expressionistas, surreais, de ilustres figuras do seu passado e do seu presente. Vogaria ágil a sua caravela, velas enfunadas pela ventania.
[editar] Ficha artística
- Nicolau Nunes da Silva (Jesus Cristo)
- Ermelinda Pires (Nossa Senhora)
- Maria Madalena (Maria Madalena)
- Amélia Chaves (Verónica)
- Luís de Sousa (Acusador)
- Francisco Luís (Pilatos)
- Renato Palhares (Caifás)
- Germano Carneiro (Judas)
- José Fonseca (Espião)
- Justino Alves (Herodes))
- João Miranda (São Pedro)
- João Luís (São João)
- Manuel Criado (Diabo)
- Gentes de Curalha e Chaves
- Ensaiador Abílio Rosa
- Narrador : Manoel de Oliveira (voz)
[editar] Ficha técnica
- Realizador: Manoel de Oliveira
- Assistentes de realização: António Reis, António Soares e Domingos Carneiro
- Director de produção: Manoel de oliveira
- Fotografia: Manoel de Oliveira
- Vestuário: Jaime Valverde
- Apetrechos: Amândio Medeiros
- Caracterização: Max Factor – Adélia Chaves
- Director de som: Manoel de Oliveira
- Operador de som (referência) : Maria Isabel de Oliveira e Fernando Jorge.
- Assistente de som: João Barbosa
- Montagem: Manoel de Oliveira
- Montagem da versão francesa: António Lopes Ribeiro
[editar] Ver também
[editar] Ligações externas
- Funções paradigmáticas de "O Auto da Primavera" no cinema de Manoel de Oliveira, artigo de João Mário Grillo na página do Instituto Camões.
- nota filmográfica em CiTi
- Auto da Primavera em Amor de Perdição (base de dados)