Pardo (cor)
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Há uma corrente que defende errôneamente que: " Pardo é um termo usado desde 1991, no Brasil, para classificação racial no IBGE[1]. No censo de 2.000, 38,5% dos brasileiros se auto-declararam como sendo pardos. "
Porém a partir de pesquisas sérias e de fontes confiáveis, costata-se que na realidade o termo pardo não foi criado censitáriamente em função da questão de miscigenação, o termo passou a ser utilizado no censo do ano de 1872, com o intuito exclusivo de contabilizar de forma separada os negros (não importando se pretos ou miscigenados) ainda cativos, dos negros (não importando se pretos ou miscigenados) nascidos livres ou forros. vide :
- "Um aspecto relativo à esta classificação, incluído na primeira operação censitária nacional, refletia o estatuto legal e oficial de parte dos habitantes do país: a sua condição de escravo. Diferenciados dos habitantes de condição livre e de origem africana, por naturalidade ou descendência, foram classificados maioritariamente como pretos, ou como pardos, na operação censitária. Por outro lado, contava-se com um razoável contingente da população negra livre na época, classificada como de cor parda em sua maior parte. Havia, então, uma forte identificação de preto com escravo, pela sua extensa justaposição, e de pardo com liberto ou descendente de escravo, produto do longo processo colonial de “mistura racial” da população euro-descendente com africanos e crioulos."(Petrucelli, 2003)
ou ainda
- “Era a partir da separação entre homens livres e escravos que o perfil daquela sociedade recebia seus contornos mais nítidos e se projetava no censo de 1872” (Oliveira, 2003).
- Citações extraidas de Classificação étnico-racial brasileira: onde estamos e aonde vamos. José Luis Petruccelli, ibge.
Disponível em: [2]
[editar] A origem do termo pardo
A mesma corrente que reinvindica uma identidade pardo/mestiça dissociada da de afro-descendente(negro) afirma que: "durante muitos anos, usou-se o termo mestiço como grupo étnico do Brasil, porém, com o avanço das pesquisas genéticas, chegou-se à conclusão que não existem raças entre os seres humanos, pois todas as pessoas pertecem à apenas uma raça: a humana[3]. Por essa razão, o termo mestiço, que condiz com uma pessoa fruto de uma mistura de raças, foi substituído pelo termo pardo nas classificações étnicas do IBGE."
Há porém fonte confiável e frontalmente contrária ao exposto na informação acima, segundo (Regueira, 2004):
"Desta maneira, além da rigidez do sistema de classificação racial mencionada, verifica-se uma constante desde 1872 até os dias de hoje: o desconforto gerado pela incerteza da classificação dos grupos miscigenados, resultando numa categoria “residual” que se expressou na maioria das vezes com o termo pardo e apenas uma vez com o termo mestiço, no censo de 1890. No caso particular do censo de 1940, quando a resposta ao quesito não se enquadrava na dicotomia básica preto–branco e outras categorias eram declaradas, a instrução para o preenchimento do formulário orientava para lançar um traço no lugar correspondente, o qual, posteriormente, na fase de codificação, foi traduzido para o termo pardo. Esta ocorrência constitui-se como uma das poucas alterações realizadas até agora nesse período durante o qual 11 operações censitárias de população de âmbito nacional foram completadas, sendo que em 3 delas, em 1900, 1920 e 1970, a pergunta de cor foi omitida. A partir de 1950, quando o quesito passa a responder estritamente ao critério de auto-declaração, a categoria de cor parda foi escolhida para ser incluída de maneira permanente entre as opções de resposta" .
Regueira, Aparecida Tereza R.: “As fontes estatísticas em relações raciais e a natureza da investigação do quesito cor nas pesquisas sobre a população do Brasil: contribuição para o estudo das desigualdades raciais na educação”, dissertação de mestrado, CEH/UERJ, 2004.
[editar] Quem é pardo?
Segundo a mesma corrente "O Brasil adota a auto-classificação para classificar a sua população em diferentes cores: branco, preto, pardo, amarelo e indígena. O termo pardo é mais antigo que o próprio Brasil: na carta de Pero Vaz de Caminha, durante a descoberta do Brasil, ele relatou ao rei de Portugal que os indígenas brasileiros eram pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos.
De uma maneira sucinta, a maior parte dos brasileiros que se classificam como pardos usam o mesmo critério daqueles que se classificavam como mestiços nos censos antigos: são pessoas de ascendência mestiça, frutos de quinhentos anos de miscigenação entre índios, brancos e negros."
Por outro lado, a visão colocada acima é desmentida por pesquisa para o censo 2000 realizada pelo IBGE, ficou comprovado que entre o termo mestiço e pardo, o termo pardo tem a preferência da maioria dos que assim se auto-declaram, entendimento de que a maioria se auto-declara pardo em decorrência da consciência de que possuem ascendência africana sem contudo apresentarem o fenótipo padrão africano dos que se auto-declaram como pretos. vide:
"Para o Censo Demográfico 2000, o IBGE promoveu reuniões com usuários internos e externos dessas informações. Na oportunidade, as discussões sobre a incorporação de outras terminologias, que substituíssem as categorias anteriormente utilizadas, foram objeto de alguns testes. As sugestões dos diversos usuários foram incorporadas nas duas provas piloto do Censo Demográfico 2000 e na Pesquisa Mensal de Emprego – PME, de 1998.
Na primeira prova piloto aplicou-se dois tipos de questionário. O primeiro 1, alertando para que a origem étnica ou racial investigava a origem étnico/racial não fosse confundida com o local do nascimento e com a pergunta “cor ou raça”, segundo as seguintes categorias: branca, preta, amarela, indígena e parda. No segundo questionário, perguntava-se primeiramente o quesito da cor ou raça, com outras categorias: branca, negra, asiática, indígena e mestiça, e o mesmo quesito da origem. Os resultados revelaram que a diferença significativa ocorreu entre as denominações parda e mestiça, com um deslocamento de uma parcela de pessoas, da segunda para a primeira categoria. A ordem do quesito “cor ou raça” modificada nos questionários não influiu nas respostas, observando-se uma absoluta concentração de declaração de “origem brasileira” nos dois modelos. [..]
A Comissão Consultiva do Censo Demográfico 2000 se reuniu no IBGE em dezembro de 1998, quando foi informada dos primeiros resultados da PME.
Depois de amplo debate, os membros da comissão resolveram, por maioria, recomendar ao IBGE que mantivesse para o Censo a pergunta sobre “cor ou raça” tal como ela tem sido aplicada até esse momento, e não incluísse uma nova questão sobre origem.
disponível em: [4]
[editar] Pardo é sinônimo de negro/afro-descendente?
Tal corrente pardo/mestiça independente defende e divulga que: "Desde que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu o governo, os pardos passaram a ser considerados como negros pelas estatísticas. No último censo, apenas 6,2% dos brasileiros se auto-declararam pretos, porém, segundo o IBGE, a população negra do Brasil na verdade é de 45%, pois soma-se a população preta com a parda e encontra-se o total da população negra.
O IBGE decidiu que negros no Brasil são todos aqueles que se auto-classificaram como descendentes de africanos, ou seja, os pretos e pardos. Porém, essa decisão tem causado algumas polêmicas, afinal, nem todos os pardos são descendentes de africanos. Historicamente, houve uma intensa miscigenação entre colonos portugueses e indígenas e, atualmente, a maior parte de seus descendentes se classificam no censo como sendo pardos, porém, mesmo nem ao menos possuem ascendência africana são considerados negros pelo IBGE. Isso torna-se mais evidente na Região Norte do Brasil, onde sempre predominou o elemento indígena na população[5]. Além do mais, muitos dos que se declaram pardos são, na verdade, majoritariamente descendentes de europeus e, geneticamente, estão longe de serem considerados negros. Alguns estudiosos acusam o governo Lula de ser anti-miscigenação e alarmam que o presidente pretende separar o Brasil entre negros e brancos[6], já outros afirmam que o governo lula valoriza a contribuição do negro para a sociedade brasileira."
Existe porém do ponto de vista corrente na Academia e oficial, visão contraditória à exposta acima :
1- Conforme informação anterior, o termo pardo não passou a ser utilizado no censo de 1991 e sim em 1872 (inicialmente para contabilizar negros livres de forma separada dos negros cativos)e foi utilizado em 7 dos 11 censos realizados (a exceção do de 1890 único que utilizou o termo mestiço e dos censos de 1900, 1920 e 1970 que retiraram o quesito cor).
2- O conceito de que pardos e pretos são negros, não foi uma "invenção do IBGE" a partir do Governo Lula, tal conceito é amplamente utilizado mundialmente desde os tempos da escravidão onde tanto pretos quanto miscigenados tinham o mesmo estatuto e tratamento, mesmo pelas superadas conceituações racialistas(conceito de Marvin Harris),o descendente de negros ainda que miscigenado se constituia em um também negro.
3- Do ponto de vista genético, apesar de não haver distintas raças (ver Projeto GENOMA 1998), há a possibilidade de identificação de ORIGEM ANCESTRAL, a qual pode ser AFRICANA, EUROPÉIA OU ASIÁTICA (indígenas são ancestralmente asiáticos), o método utilizado para definir a real ancestralidade do indivíduo é o de mTDNA (DNA mitocondrial) por matrilinhagem (linhagem das mães), este mTDNA não se mistura nem se modifica por miscigenação, e é passado de mãe em mãe, ou seja, por este método não há indivíduos "mestiços", cada indivíduo possui uma identidade ancestral indelével e inequívoca dentro das três já citadas. Cabe lembrar que o foco biologizante não deve ser levado em consideração com relação a questões políticas étnico-raciais já que não há raças do ponto de vista biológico, "raça" é uma costrução social, devendo ser tratada prioritariamente sob este enfoque e não pelo genético.
4- Mesmo insistindo na referência a critérios genéticos a moderna genética de populações confirma a propriedade em se agrupar "pretos" e "pardos" conforme bem explicado em citação contida em artigo do Dr. Sérgio D J Pena (Geneticista mais respeitado do país):
" As regiões Sul e Norte, por sua vez, mostram valores menores de ancestralidade africana e diferem significativamente nas proporções de origem ameríndia e européia (Tabela 2). Para Queixadinha, o conjunto de indivíduos classificados como pretos apresentou uma proporção de ancestralidade africana de 51%, enquanto para os pardos este valor foi de 44%. Essas cifras revelam que os pardos apresentam maior semelhança nos níveis de ancestralidade africana, com os pretos, o que dá suporte científico à estratégia de mobilização política empregada pelo movimento negro do Brasil, que consiste em agrupar indivíduos pretos e pardos na categoria negros (Telles, 2003). Telles, Edward: Racismo à Brasileira: Uma Nova Perspectiva Sociológica, Rio de Janeiro, Relume Dumará, 2003.
Cabe lembrar, que toda a população da região norte do Brasil equivale a menos de 8% de toda a população nacional, sendo assim, a categoria genérica "Pardo" que hoje serve para abrigar indistintamente "não-brancos" (que por motivos diversos buscam não se enquadrar nas categorias tradicionalmente estigmatizadas de preto ou índigena), realmente não é capaz de atender esta específicidade regional, mas é válida para 92% do contingente populacional nacional.
Ressaltando ainda que, existe uma histórica e equivocada tendência em se negar a forte presença negra no norte do país :
"Em artigo recente sobre a presença negra na Amazônia de meados do XIX, Luís Balkar Pinheiro aponta para as limitações de abordagem encontradas na produção historiográfica e conclui que um de seus principais desdobramentos é o fato de que “o ocultamento da presença negra na Amazônia continua efetivo, mantendo incólume uma das mais graves distorções na escrita da história da região." (SAMPAIO,1999,s/p)
SAMPAIO, Patrícia Melo. MNEME - REVISTA DE HUMANIDADES - ISSN 1518-3394, UFRN – CERES, NAS TEIAS DA FORTUNA, acumulação mercantil e escravidão em Manaus, século XIX, disponível em : < [7] > , acessado em 19 .dez.2006
Tal tradicional ocultamente/negação que para o leigo pode fazer a não-presença negra na Amazônia soar como realidade, se confirma à primeira evidência, por ex. o estado do Amazonas no censo de 2000 contabilizou o seguinte resultado:
Brancos| Pretos' | Pardos | Amarelos(e Indígenas)
24,8%---|3,7%----|65,7%----| 4,4% Fonte: Pesquisa nacional por amostra de domicílios 1999 [CD-ROM]. Microdados. Rio de Janeiro: IBGE, 2000
Fica claro que o número de auto-declarados pretos configura "empate estatístico" com o de indígenas, o que leva ao entendimento primeiro que negar a presença negra seria o mesmo que negar a presença indígena, e segundo que não há motivos para crer que a população amazônica auto-declarada como parda não seja também em boa parte afro-descendente, conceito valido nos outros 92% da população nacional.
Tal situação deve portanto ser resolvida no censo de 2010, provavelmente com a eliminação da categoria pardo e a modificação de todas as categorias para outras não baseadas em cor mas sim no conceito de ancestralidade geográfica: Nativo-descendentes,Euro-descendentes,Afro-descendentes e Asiático-descendentes, de tal tal forma os "pardos" de origem africana e os pretos se agrupariam sob o já atualmente utilizado conceito de Afro-descendentes, e os "pardos" de origem indígena se agrupariam juntamente com os indígenas no grupo Nativo-descendente.